Anne with an E 2ª temporada

 

Uma semana depois da estreia da segunda temporada de Anne with an E, e mais uma vez assistindo ao primeiro episódio, só posso demonstrar toda minha gratidão a essa série maravilhosa, empoderada, necessária e mágica. Anne não é qualquer série; é um misto de sensações, sentimentos e emoções, ao mesmo tempo em que enriquece o intelecto, acalenta o coração e enobrece o espírito. Anne é uma obra para crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos; é uma obra atemporal, espirituosa, verdadeira e livre, capaz de te fazer flutuar, reviver os melhores momentos da sua vida e acreditar num mundo e num futuro melhor.

Por que tanto amor? Oras, porque Anne é puro amor! Amor extremo e amor transcendental: é o amor da família, o amor das amizades, o amor da comunidade, o amor que vem da irmandade, da humildade e da generosidade. É um amor que te desperta, chacoalha e clama pela sua atenção! Mas sem cobranças: é um amor genuíno e que te faz sentir o calor do mundo, a magia do universo.

A segunda temporada de Anne dá continuidade aos eventos do final da primeira. É muito bom retornar a Green Gables: é a mesma sensação de retornar a casa depois de um dia exaustivo e movimentado. É extraordinário reencontrar Marilla e seu jeito único, que vai do extremo seco ao mais caloroso afeto; assim como é mágico reencontrar Matthew e sua falta de jeito com as palavras e com as atitudes alheias. Jerry e suas novas conquistas e aspirações enquanto trabalha nos estábulos, outro que não consegue escapar dos encantos de Anne – e das consequências desse encanto. Anne… Como é bom reencontrá-la, cada vez mais madura e cada vez mais dona de si, cada vez mais solícita em ajudar o próximo e compreender o mundo ao seu redor. Anne… Uma criança, uma menina, uma mulher; uma personagem a frente de seu tempo, com um passado terrível, mas um presente magnífico e um futuro repleto de possibilidades.

Nessa fase somos reapresentados ao mundo de Avonlea, com a escola, os bosques e a floresta, a própria Green Gables, Diana Barry, Tia Josephine, Gilbert Blythe, a Sra. Rachel Lynde e os demais personagens que fizeram parte da primeira temporada, além de novos rostinhos: o sensível e cativante Cole e o encantador Sebastian, ou Bash, como prefere ser chamado. Tanto Cole quanto Bash representam um avanço ainda maior para o seriado: o primeiro é homossexual, e sua trama é desenvolvida de maneira delicada e profunda; já Bash é negro e assume cenas importantíssimas, com grande destaque e uma ótima representatividade. A importância dos dois personagens é clara, afinal, no final do século XIX, vocês já podem imaginar como a vida era ainda mais dura e cruel para os homossexuais e os negros. Colocá-los em papeis de destaque demonstra qual é o real foco da série e o real significado de Anne como signo: cultuar a diversidade, respeitar as diferenças e mostrar que todos nós somos iguais, independente da cor da pele, da classe social, da orientação sexual ou do gênero.

E falando em gênero, é importante relembrar que Anne é uma série totalmente feminina e feminista – e não, isso não significa que seja uma história apenas para mulheres. Como a música da abertura (Ahead by a century) entoa, nossa Anne “está à frente por um século” da maioria das personagens da história. Uma menina sagaz, honesta com seus sentimentos e crenças, que questiona o funcionamento da sociedade, que questiona o patriarcado e o machismo e não se deixa abater pela imposição dos homens. Uma menina que mostra que mulheres possuem um lugar de fala, que mulheres devem se unir e devem se respeitar, que juntas são invencíveis e ainda mais fortes; que juntas são maiores que qualquer opressão. Anne pode ser vítima em muitos momentos, mas não é uma personagem passiva. Ela luta, fala, pergunta, aprende, repreende, questiona e tenta mudar a realidade ao seu redor. Anne não se cala e não se deixa abater facilmente. Anne é a personificação da liberdade, dos direitos das mulheres e da igualdade de gêneros.

Belíssima continua sendo a representação da amizade por meio da garota e Diana Barry. Enquanto uma é aventureira, criativa e imaginativa, a outra é a típica menina padrão classe média, porém com uma alma nobre, um coração disposto e uma mente receptiva. Diana ama Anne verdadeiramente e não se envergonha de defendê-la ou tomar partido em suas “esquisitices”. Diana protagoniza um momento bem confuso quando se depara com a sexualidade de sua tia-avó, mas mostra uma grande evolução ao reconhecer todas as formas de amor que existem. E isso para uma criança que nasceu para as regras da etiqueta no final do século XIX significa MUITO. Ainda sobre o tema da etiqueta, vemos vários questionamentos acerca do papel da mulher na sociedade: as “crueldades” impostas pela etiqueta e pelo bom comportamento, em contraponto com as necessidades reais do ser humano. Há uma cena maravilhosa em que uma personagem precisa escolher entre o casamento e a liberdade de estudar. O diálogo é realizado com sua mãe – uma das mães progressistas de Avonlea – e é carregado de profundidade. Outros momentos mostram a mãe de Diana questionando seu papel dentro do casamento e reforçando a necessidade da cumplicidade e a quebra do machismo.

A sexualidade é abordada de maneira natural e orgânica enriquecendo a obra e sendo um grande acerto do roteiro. O texto é indubitavelmente belo: tanto Cole quanto a tia-avó Josephine carregam as dores da repressão da sociedade, mas em momentos distintos  entendem que essa é a verdadeira essência deles, que são únicos e especiais e ao mesmo tempo não estão sozinhos. É uma relação muito bonita a que é construída pela senhora outrora solitária e o garoto que está tentando se encaixar de todas as formas. Cole representa todos nós que fomos ridicularizados em algum momento, que sofremos bullying e muitas vezes vimos à esperança nos deixar; enquanto tia Josephine representa a maturidade, o entendimento e a aceitação do que e de quem somos.

O arco de Bash foi importantíssimo para a construção de alguns personagens ao seu redor, além de mostrar outro lado, tanto de Avonlea, quanto da sociedade vigente. Sendo negro, Bash carrega os estigmas do preconceito e do racismo, mas não se cala e não abaixa a cabeça para o homem branco. Bash é um personagem forte e de destaque, que traz valiosos ensinamentos para Gilbert e Rachel Lynde. O encontro dele com Anne é envolto em suspense, mas acaba sendo mágico e belo: Anne mostra mais uma vez que é uma alma ímpar, um ser humano a frente de seu tempo, alguém que enxerga Bash além da cor da pele. O ator, Dalmar Abuzeid, tem carisma e presença e consegue cativar o público.

O bullying é altamente discutido no texto e essa discussão é necessária. Anne, Cole, Bash e até mesmo Matthew (em cenas da infância) foram vítimas e a trama se preocupa em mostrar as consequências do ato para cada um, além das forças que eles encontraram para se recuperarem. Marilla ganha uma participação muito importante nesse tema ao confrontar sua melhor amiga de infância, Rachel. A entrada da Sra. Stacy, nova professora da escola de Avonlea, ressalta a importância do assunto, além de trazer um frescor e um apelo por mudanças no sistema educacional. Mudança essa que pode e deve ser aplicada nos dias de hoje também.

A impressão que fica depois de tantos assuntos importantes abordados é de que Anne with na E é uma série fundamental. Ela diverte, encanta e distrai, mas também ensina, ajuda na nossa evolução constante e nos alerta e faz refletir. A igualdade de gêneros dentro e fora do casamento é discutida, o papel da mulher, a forma de educar crianças, o progresso e as tecnologias, o bullying e o preconceito, as desigualdades sociais… Todos esses assuntos discutidos com profundidade e êxito. Crianças entenderão e adultos também, principalmente. A segunda temporada de Anne pode ser um pouco mais pesada, madura e séria que a primeira, mas não é menos magnífica. Ela é o que é: uma série atemporal e sensível de todas as formas.

Nem preciso falar sobre a direção dos episódios, sempre muito bem feita, ou o roteiro idealizado pela ótima Moira Walley-Beckett. A produção de Anne continua fenomenal, com uma fotografia maravilhosa, paisagens e cenários de tirar o fôlego, figurinos belíssimos e uma reconstrução histórica perfeita e detalhista. A trilha-sonora continua delicada e envolvente e o elenco é um dos maiores acertos da Netflix nos últimos anos.  Na verdade, Anne with an E é uma obra tão rica, atual e bem feita, que beira ao extremo da perfeição.

Sou suspeito para falar, afinal, sempre que assisto sinto como se minha alma saísse de meu corpo e flutuasse por aí, junto com Anne em um mundo mágico de sonhos onde tudo é possível e tudo é mais simples. Mas diferente de Poliana, Anne é uma personagem real, uma que nos faz acreditar no poder da fantasia, mas também nos faz lutar por um mundo mais justo em que mulheres, negros, órfãos ou homossexuais podem encontrar felicidade e liberdade.

 

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730

730 dias depois
continuo com o mesmo sentimento
de que não deixei de te buscar
nas fotografias que vejo por aí
jogadas como folhas ao vento;
de que não deixei de buscar o formato
de seu rosto
nas faces desesperadas;
de que não deixei de sonhar com sua
boca,
mesmo que meus lábios
alcancem outros que não os seus;
de que não consegui te deixar ir,
porque eu mesmo não sei
qual caminho tomar,
qual rumo, qual direção;
qual lugar restou
no meio da guerra
que travei com minha alma
e minha essência.


Na mesma noite em que você surgiu,
eu sinto como se estivesse preparado
para me despedir
mas também para te receber
novamente, aqui
perto de mim, junto a mim,
de onde nunca deveria ter saído.


730 dias depois,
já perdi a sanidade
e a recuperei dezenas de vezes;
dormi, comi, engordei, emagreci
e deixei de ser eu mesmo e,
agora que tento encontrar-me
mais uma vez,
eu só gostaria de poder te encontrar
no meio dessa bagunça
só para dizer o quanto
você significou e significa ainda.
A noite toda, pelo amor…
Leve-me de volta
à noite em que nos conhecemos.
A noite toda.

F.S. Consolini

 

Razão e Sensibilidade e suas primorosas versões.

Razão e Sensibilidade é quase tão – ou até mesmo mais – intenso quanto Orgulho e Preconceito. É uma trama forte, rica, cheia de camadas, críticas, humor e ironias. Com personagens femininas tão fortes e profundas quanto as de Orgulho e Preconceito, Jane Austen trabalha nessa obra com a linha tênue entre a razão e os sentimentos. Sua maneira precisa e formidável de criar personagens e desenvolvê-las com cuidado, possibilitou que essa linha tênue não fosse apenas um embate típico entre cérebro e coração, mas uma forma de equilíbrio que todo ser humano deve atingir, afinal, tanto a mente, quanto o coração, são impossíveis de medir.

Com a novela Orgulho e Paixão se aproximando e já sabendo que praticamente todos os livros de Austen estarão parcialmente representados em tela, resolvi falar sobre as duas (ótimas) adaptações do primeiro romance de Jane, já que a personagem Marianne Dashwood (Mariane Benedito no folhetim, vivida por Chandelly Braz) será trabalhada na novela.

Mariana (Chandelly Braz) em Orgulho e Paixão

Dessa vez, entretanto, pretendo falar das duas adaptações paralelamente, estabelecendo um arco entre as duas, valorizando seus acertos, possíveis erros e as minhas preferências, que em alguns momentos tendem ao filme, e em outros momentos tendem pela série. Decidi fazer dessa forma porque, diferente das quatro versões de Orgulho e Preconceito, o filme e a série de Razão e Sensibilidade são praticamente complementares – e em alguns momentos, idênticos.

Espero que gostem!!

Para contextualizar, já que é uma trama um pouco menos conhecida que a sua irmã mais consagrada, Razão e Sensibilidade conta a história das irmãs Dashwoods, Elinor e Marianne. Junto com a mãe e a irmã mais nova, elas são obrigadas a deixar a casa em que vivem depois da morte do Sr. Dashwood e se mudam para uma propriedade menor em outra região. Vivendo na pobreza e sem possibilidades de futuro, as duas irmãs conhecem e desfrutam do amor e do sofrimento a sua maneira; enquanto Elinor é racional e prática, mas ainda assim sensível, a Marianne é apaixonada, intensa e romântica.

A premissa é simples, mas é nessa simplicidade que Jane Austen nos surpreende ao estabelecer paralelos e um equilíbrio entre a forma como essas duas irmãs sentem e reagem em meio a uma sociedade rígida, preconceituosa e cheia de normas pré-estabelecidas.

Resultado de imagem para razão e sensibilidade  O filme de Razão e Sensibilidade foi lançado no ano de 1995, sendo uma produção britânica-americana, dirigida por Ang Lee (o mesmo diretor do sensível As Aventuras de Pi) e roteirizada e estrelada pela maravilhosa atriz Emma Thompson. Teve no seu casting um elenco primoroso, com nomes como Allan Rickman (saudades eternas), Kate Winslet – muito elogiada por sua performance -, Hugh Grant, entre outros. O longa foi indicado a 7 categorias no Oscar, incluindo a de Melhor Filme, abocanhando o troféu de Melhor Roteiro Adaptado. Foi também o vencedor do Globo de Ouro de 1996 como Melhor filme de drama, além do BAFTA e o Urso de Ouro no Festival de Berlim, um dos mais renomados no mundo.

  Já a série foi lançada em 2008 e levada ao ar pelo canal britânico BBC. O roteiro ficou por conta do ótimo Andrew Davies, que já havia adaptado Orgulho e Preconceito para o canal em 1995, e teve a direção de John Alexander. Foi estrelada pela sensível e incrível Hattie Morahan, e a doce Charity Wakefield nos papeis de Elinor e Marianne, respectivamente. Recebeu críticas muito positivas e foi indicada ao Emmy e ao BAFTA pela trilha-sonora, pelo figurino e pela cinematografia.

Ambas as produções são extremamente fieis, delicadas, sublimes e respeitam o texto de Austen sob todas as medidas. As duas versões conseguiram captar a essência de todos os personagens e transpassaram para a tela as situações, os cenários e os acontecimentos com maestria e prontidão. É praticamente um presente que tenhamos tido tão boas adaptações para mídias diferentes em menos de 15 anos.

O filme de Ang Lee é uma produção fenomenal. Começando pelas ótimas locações e pelos maravilhosos cenários, atrelados a uma fotografia rica e esplendorosa, reforçada pelas paisagens, pela natureza e pela graça dos atores. A direção de arte simplesmente recriou a época e o cenário com precisão, fazendo o público se sentir parte da história. A fotografia de Michael Coulter, indicado ao Oscar, nos transporta para aquele universo, e nos dá intimidade aos personagens e às situações. Já o figurino de Jenny Beavan e John Bright, também indicado, é um primor ao extremo! Possivelmente é o figurino mais bonito de uma adaptação de Jane Austen, seja ela qual for. As cores se contrastam entre Marianne e Elinor, dando percepções sobre suas personalidades. A caracterização é, sem sombra de dúvidas, de uma elegância sem tamanho.

A série da BBC não fica atrás. Extremamente bem produzida e dirigida, também encontrou locações lindíssimas, com paisagens de arrepiar a alma. Os cenários reproduzem a época com fidelidade e a imersão naquele período é incontestável. Os figurinos também são muito bem feitos. O contraste de Elinor e Marianne é perceptível desde o primeiro momento, a primeira usando cores mais modestas e frias, enquanto a segunda opta por vestimentas nas cores quentes. A fotografia também é um primor e algumas tomadas são tão cheias de sentimento e intensidade, que facilmente seriam obras de arte. A trilha-sonora da série é tocante, destaque para a música de abertura que também é tocada em momentos chave da história, elevando o nível emocional. O filme também possui uma ótima trilha, contudo, acredito que o instrumental da série causa mais impacto e perpetua cenas e sentimentos com uma facilidade extrema, diferente do filme, que possui muitos momentos silenciosos que poderiam ter sido preenchidos.

No que concerne ao elenco, chega a ser engraçado e até mesmo difícil escolher um lado. No filme, temos um elenco de primeira linha, com nomes de peso e atuações gigantescas. A série não possui nomes de peso como no longa, mas seu elenco não fica devendo em nada em relação à atuação. Acredito que as duas mídias tiveram sorte e merecem ser aplaudidas pelos atores que possuem. Claro que alguns se sobressaem mais do que os outros, e pretendo comentar minhas impressões.

Elinor Dashwood é defendida em 1995 por Emma Thompson e em 2008 por Hatie Morahan. Ambas as atrizes possuem a mesma beleza ímpar da personagem: belas, porém contidas, modestas e mais “apagadas” que as irmãs. As duas atrizes captaram a essência de Elinor com maestria: convencem, emocionam e ganham a empatia do público. Na série, há cenas em que apenas com o olhar, Hatie nos transporta para um universo de sentimentos conturbados e intensos. No filme, com um gesto ou expressão, Emma nos desnuda todas as sensações e percepções de Elinor. É claro que Thompson foi indicada a melhor atriz por sua interpretação e ganhou o BAFTA e o National Board of Review em 96. No final das contas, não consigo optar por nenhuma: as duas são excepcionais.

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Kate Winslet interpretou a jovem Marianne no longa metragem, papel que ficou por conta de  Charity Wakefield na série. Mais uma vez, duas ótimas atrizes que ficaram perfeitas no papel. A atuação das duas chega a ser semelhante em muitos momentos, inclusive. Kate tem uma predisposição aos papéis de época (ROSE, ROSE) e consegue demonstrar toda a rebeldia e paixão da personagem. Charity por sua vez tem um jeito impetuoso no olhar, ao mesmo tempo um sorriso doce e encorajador. É difícil escolher, mas nesse caso opto por Kate Winslet, não só por ser uma das minhas atrizes favoritas, mas porque acredito que conseguiu reunir o quadro completo de Marianne numa tacada só, embora Charity não fique muito atrás. Inclusive, Kate ganhou como melhor atriz coadjuvante no BAFTA.

Quanto aos homens, Hugh Grant é Edward Ferrars, o par romântico de Elinor, em 1995 e Dan Stevens o interpreta em 2008. Os dois atores captam a essência tímida, contida e sensível do personagem, ao mesmo tempo em que os dois são bem galãs. A química com Elinor é sentida nas duas versões, embora na de 2008 haja mais cenas de interação entre os dois e uma participação um pouco maior de Edward, devido ao tempo para o desenvolvimento do personagem. Acredito que os dois representaram bem seus papéis, mas senti uma segurança maior em Dan Stevens, uma energia que não senti na interpretação um pouco mais crua de Hugh. Dan foi sereno, tímido, romântico, contido e intenso, tudo ao mesmo tempo, e tanto na cena em que Edward encontra Elinor e Lucy juntas, quanto na cena em que a verdade sobre o casamento de Lucy é revelada, Dan me convenceu apenas com o sorriso e a intensidade de suas ações.

 

Coronel Brandon foi interpretado tanto por Alan Rickman (1995) quanto por David Morrisey (2008). Mais uma vez, dois ótimos atores que defenderam o papel com maestria. É o personagem descrito e revivido, sem tirar e nem por. Embora para um personagem de 35 anos eu considere os dois atores com uma aparência mais velha (Alan, por exemplo, já tinha quase 50 anos e David já passava dos 42), é indiscutível o talento de seus representantes. Tanto Alan, quanto David, souberam tirar o melhor de Brandon, mas Alan Rickman leva a melhor aqui. Sua performance é deslumbrante e até mesmo poética, um dos melhores atores que já me dei conta e com uma representação fiel e perfeita sob medidas do Coronel. Sua química com Kate Winslet é viva e crescente, e até mesmo nas cenas com Emma Thompson, o nível é altíssimo.

 

Willoughby, o personagem mais controverso e talvez odiado de Razão e Sensibilidade foi interpretado por Greg Wise no filme e Dominic Cooper na série. Greg Wise interpretou um Willoughby sob medidas; divertido, galante, bonito, apaixonado, pueril e embuste. Sua interação com Kate Winslet foi maravilhosa e a dor de Marianne se transforma na nossa dor. Um dos momentos mais intensos, quando Marianne reencontra Willoughby em Londres, foi recriado de maneira satisfatória pelos atores, sendo a melhor versão da cena, pela atuação dos envolvidos e pela interação do personagem com Elinor antes do reencontro fatal. Dominic, por sua vez, também o interpreta com sucesso, embora não tão galante e bonito quanto Greg. Porém, sua química com Charity é incrível, rendendo uma das cenas mais bonitas da adaptação, que acontece dentro da mansão da tia de Willoughby.

 

Ang Lee, como diretor, não ousa e não inova em sua direção, mas nos apresenta um trabalho impecável, sensível, delicado, sentimental e intenso. Auxiliado pelo ótimo roteiro de Thompson, o diretor consegue captar as emoções contrastantes das irmãs e transforma num trabalho poético, intrínseco e reflexivo. John Alexander, por sua vez, tem uma direção mais ousada e menos convencional que Ang Lee; o contraste entre as irmãs se dá pela intensidade das cenas de cada uma, pelo jogo de câmeras, pela iluminação e pelos ângulos escolhidos. A cena em que a personagem Marianne torce o tornozelo é muito mais intensa e de perder o fôlego na série; o mesmo se pode dizer da cena em que a mesma personagem toma chuva e quase pega uma pneumonia. O tom da direção nessa cena mostra toda a complexidade dos sentimentos de Marianne naquele momento. A forma como o diretor mostra os sentimentos de Willoughby e Marianne desabrochando também é intensa, e reflete a personalidade romântica e apaixonada da moça, em uma tomada tocante, apaixonante e até mesmo sensual. É preciso dizer que, enquanto o filme de Ang Lee é mais poético, a série da BBC é provavelmente a adaptação mais sensual de um romance de Austen.

Algumas alterações do filme deixaram as cenas mais gostosas e emocionantes. É o caso da revelação de que Edward e Lucy Steele estão num noivado. Fanny tem a reação mais hilária no filme, enquanto na série a cena ganha um tom mais pesado pela presença da mãe de Edward, que assume um ar parecido com o de Lady Catherine de Bourgh. A própria Lucy, no roteiro cinematográfico, ganha ares mais provocantes e irônicos, enquanto que na série sua representação é muito “correta”. Embora Hatie tenha arrasado como Elinor, Emma Thompson sai na frente tanto na cena em que Marianne está acamada e doente, quanto na revelação do amor de Edward por ela. Já a série ganha nas cenas mais românticas e na construção da relação de Elinor e Edward.

Para finalizar, mais uma vez reitero que as duas versões são incríveis. Não consigo definir se há uma versão melhor de fato. São duas adaptações belíssimas e que fazem jus ao livro, cada uma a sua maneira. A visão de Ang Lee é diferente da visão de John Alexander, assim como Emma Thompson teve que condensar algumas passagens, mas ainda assim, manteve a fidelidade, enquanto Andrew teve mais liberdade para explorar situações na série graças à duração dos episódios. Todos foram muito felizes em suas realizações e acredito que Jane Austen teria ficado orgulhosa tanto do filme, quanto da série.

Recomendo as duas produções e, claro, a leitura do livro.

Ps.: O elenco do filme é formado por tantos atores que estiveram anos depois nos filmes de Harry Potter, que poderíamos chamar Razão e Sensibilidade de um filme preparatório hahaha.

Adaptações de Orgulho e Preconceito parte 2

Dando sequência às minhas considerações sobre as adaptações mais famosas do meu livro predileto, aqui estão as duas últimas (e melhores) versões.

 

Orgulho e Preconceito BBC (1995)

    Orgulho e Preconceito (1995) é uma minissérie da BBC, apresentada em seis capítulos de aproximadamente uma hora de duração cada. Foi adaptada pelo ótimo roteirista Andrew Davies e dirigida pelo excelente Simon Langton. Contou com Jennifer Ehle no papel de Elizabeth Bennet e Colin Firth como Mr. Darcy. É considerada por muitos fãs entusiastas do trabalho de Austen como a melhor adaptação de Orgulho e Preconceito e a melhor adaptação de qualquer livro da escritora.

De fato, essa versão é tão esplêndida, que beira à perfeição. Os trabalhos da produção, do diretor e do roteirista merecem todo o louvor possível, não sendo à toa que a minissérie concorreu a diversos prêmios, levando alguns deles, como o BAFTA de melhor atriz para Jennifer Ehle, o Broadcasting Press Guild de melhor ator para Colin Firth em 1996 e Melhor Série dramática, além do Emmy de melhor figurino. Não sendo o bastante, a produção é considerada pela Entertainment Weekly como uma das 20 melhores minisséries de todos os tempos, um dos 40 maiores programas de TV já realizados pela Radio Times e ocupa o 99º lugar entre Os 100 maiores programas de televisão britânicos do século XX, de acordo com a British Film Institute. Ou seja, em outras palavras, o legado dessa adaptação, tanto em crítica quanto em público, é incontestável.

É difícil ser imparcial quando seu livro favorito é levado em cena de maneira tão coesa, coerente, bela e verdadeira. O trabalho do roteirista deve ser exaltado às alturas: é sem sombra de dúvidas a adaptação mais fiel de um livro que já me dei conta. Embora com uma visão mais ampla em alguns momentos referente a algumas situações do livro, o roteiro preza ao manter os diálogos originais do romance intactos. A impressão é de que estamos “lendo” a série. A fidelidade é tanta, que é como ouvir a narração do livro à medida que a produção se desenvolve.

Outro ponto interessante sobre o roteiro adaptado, é que embora siga fielmente os acontecimentos e diálogos do livro, ele ousa ao nos aproximar um pouco mais das figuras masculinas, como Bingley, Wickham e, principalmente, Darcy. É normal encontrarmos cenas em que esses personagens estão sozinhos ou interagindo com outros personagens em situações que não encontramos no livro. Essa escolha é acertada: os personagens se tornam ainda mais reais e próximos de nós, e é fácil encontrarmos suas motivações, por exemplo. O foco dessa adaptação é um equilíbrio interessante e construtivo entre Elizabeth e Darcy, e não apenas Elizabeth, como geralmente é nas demais.

Por falar no equilíbrio dos protagonistas, é válido reforçar o quanto Ehle e Firth se entregaram aos papéis. Ele nos apresenta um Darcy como nunca o vimos antes: é tão misterioso, soturno, sisudo e arrogante quanto no livro, mas ainda assim, é plácido, intenso, devotado e atraente. Colin captou toda a essência do personagem e transformou seu Mr. Darcy em uma completa febre. Prova disso é a ousada, porém brilhante cena do lago, em que Darcy dá um mergulho. Essa cena está no imaginário dos fãs até hoje, e também não poderia ser diferente… Colin Firth estava SENSACIONAL. É provavelmente o Darcy preferido da maioria dos fãs! O ator soube dosar todas as camadas de Darcy e deu profundidade a elas. Já Jennifer esteve incrível e realmente deslumbrante como Elizabeth. Não há o que reclamar! Assim como Firth, ela também captou toda a essência da personagem, reforçando os traços de heroína de Elizabeth e imortalizando a figura ainda mais. Aqui temos a primeira Elizabeth que de fato se preocupa em ser a descrição perfeita do livro. Embora Elizabeth Garvie em 1980 tenha sido uma ótima Lizzie, Jennifer Ehle conseguiu adentrar com intensidade e maestria a mente da heroína mais amada de Austen. As cenas de transição em que vemos Elizabeth correndo, saltando ou se divertindo sozinha revelam muito da personagem, assim como a interação dela com os demais familiares, sempre muito pontual com reviradas de olhos, sorrisos irônicos ou expressões de delicadeza, leveza e gentileza. A química de Ehle com Firth é TÃO gigantesca, que desde o primeiro momento é impossível torcer contra o casal. Entre olhares intensos, calorosos e cheios de sentimentos controversos, não tem como não se derreter pelos dois. Diferente das adaptações anteriores, é possível encontrar o verdadeiro sentimento que ambos sentem, é possível dizer com exatidão o momento em que Elizabeth deixou de enxergá-lo como um homem ruim e passou a amá-lo gradativamente. É possível encontrar o momento em que Darcy se transforma e começa a ser um homem melhor. É possível quase enxergar as faíscas entre eles.

Outro ponto a destacar é a presença de Jane. Nas versões anteriores a personagem era representada de forma abobadada ou extremamente contida. A atriz Susannah Harker encontrou um ótimo tom e cativou a todos com a doce irmã mais velha da família Bennet. Vemos diversas cenas em que Jane e Elizabeth interagem e é possível ver o quanto as irmãs se amam e se respeitam. Há um carinho extremamente lindo nas cenas em que estão conversando no quarto, ou andando juntas pela propriedade, ou colhendo flores e lavanda no jardim. Sua química com Bingley também é forte, e não fica devendo em nada para a química dos protagonistas.

Lady Catherine de Bourgh finalmente é interpretada por uma atriz que se aproxima da idade da personagem no livro. Ela é tão desagradável e arrogante quanto nas páginas. O embate com Elizabeth é uma explosão de atuação e um dos melhores momentos da minissérie. É simplesmente fácil sentir nojo da tia de Darcy e torcer para que desapareça. E falando em nojo, Caroline Bingley se sobressai nessa versão, com expressões duras e provocativas, com uma arrogância ainda maior que a de Lady Catherine. É facilmente a personagem mais detestável da adaptação. Já a Senhora Bennet é muito bem retratada, como em todas as versões, mas aqui ganha um toque de humor ainda mais intenso, um trabalho maravilhoso da atriz Alison Steadman.

Para a produção, mais uma leva de elogios. O figurino é excelente, tanto que ganhou o Emmy. É uma representação fiel e “classuda” do período em que a história se passa. A fotografia é muito bonita e pode-se dizer que foi um referencial para o filme de 2005. A trilha sonora é bonita, emocionante e cativante, ajudando no tom da série e dos personagens. A direção é um primor, totalmente visionária e acertada para a época, a sensação é de que cada episódio é um filme que se complementa ao outro. Destaque também para as ótimas locações e cenários muito bem construídos e representados. É como realmente estar dentro de um romance de Austen, sem tirar e nem por.

Por fim, Orgulho e Preconceito de 1995 é um grande deleite, uma obra-prima. Seja nas categorias mais técnicas, seja no poder do texto, seja pelos atores, a versão é um grande presente para os fãs mais fervorosos e uma belíssima homenagem à criação de Jane Austen. 5 estrelas de 5 estrelas. Se pudesse, seriam milhões.

 

Orgulho e Preconceito 2005

 Orgulho e Preconceito (2005) é um filme britânico-americano do gênero drama dirigido pelo talentoso Joe Wright e com roteiro de Deborah Moggach, baseado no livro homônimo de Austen. É o primeiro longa de Orgulho e Preconceito desde 1940 e foi indicado a quatro categorias no Oscar, incluindo melhor atriz e direção de arte. Teve Keira Knigthley no papel de Elizabeth Bennet e Matthew Macfadyen no papel de Mr. Darcy.

Falar dessa adaptação é como falar sobre o chocolate mais gostoso que já experimentei na vida. É de longe a minha versão favorita, seja pelas cenas belíssimas, seja pelos atores, ou pelo clima maravilhoso e contagiante das tomadas. Não dá para ser imparcial, afinal, foi a primeira versão de Orgulho e Preconceito que pude conferir logo após a leitura do romance. Lembro-me de ter lido o livro em um dia, e no seguinte de já estar conferindo a versão de Joe Wright, com uma lágrima nos olhos e a mão no coração. Sim, esse filme despertou em mim todas as melhores sensações, e assisti-lo foi como reviver o livro que havia terminado de ler.

É universalmente conhecido como a melhor adaptação do livro para as telonas e a segunda melhor adaptação do livro e dos trabalhos de Austen. É, provavelmente, um dos trabalhos favoritos dos fãs, assim como a minissérie de 95. O filme é belíssimo, representativo, coerente e coeso com as ideias da autora e sublime de todas as formas possíveis. Foi considerado pela crítica como um dos melhores filmes do ano, recebendo aprovação de 85% no Rotten Tomatoes, nota 82 no Metacritc e nota 9 de 10 pelo Daily Mirror. Segundo o Rotten Tomatoes, o consenso entre os críticos é que o filme “é mais uma adaptação para o cinema do romance de Jane Austen, mas as performances afinadas e sensibilidade moderna na produção tornam essa peça de período familiar nova e agradável”. Além disso, o filme alcançou o primeiro lugar em sua primeira semana de exibição no Reino Unido.

O premiado diretor Joe Wright deu um toque sofisticado, romântico, rebelde e feminino à obra. O roteiro de Deborah Moggach é pontual, fiel na medida do possível e transcendente. De maneira orgânica, a roteirista captou a essência dos personagens e das passagens emblemáticas, unida à visão poética e sensível de Wright. Como qualquer adaptação para o cinema, algumas mudanças ocorreram: passagens como a visita de Lizzie a Rosings Parks e Permberley foram mais curtas em relação às adaptações televisivas e alguns personagens foram cortadas, como Louisa Hurst e seu marido, Mary Lucas, Sr. e Sra. Philips, alguns oficiais da milícia e os filhos dos Gardiners. A interação entre Lizzie e Wickham também foi menor, bem como a situação da fuga de Lydia. Embora cortes tenham sido necessários, eles em nada afetam o desenvolvimento dos personagens e não diminuem o esplendor das cenas, das reflexões e dos sentimentos envolvidos. Diferentemente das minisséries, principalmente a de 1995, o tempo de arte era bem menor. Contudo, embora a duração de um filme seja um obstáculo para os roteiristas e diretores, Deborah Moggach merece ser ovacionada pela profundidade adotada e pela essência clara e fiel ao livro. Todas as passagens mais importantes e personagens mais emblemáticos estiveram presentes.

Como mídias diferentes, algumas cenas que funcionaram perfeitamente no livro e nas minisséries foram levemente alteradas para uma maior sensibilidade no longa. O pedido de casamento de Darcy teve seu cenário modificado; enquanto nas outras adaptações vemos o personagem pedindo Lizzie em casamento no quarto de hóspedes da casa de Mr. Collins, no filme o protagonista a pede em casamento ao ar livre, em clima chuvoso num cenário gótico e romântico. A cena em questão ganhou beleza, profundidade e toda uma condição ao mesmo tempo romântica e desesperadora. A chuva, como elemento narrativo, marca a passagem como se fosse um rito, evidenciando a transformação de Darcy após a recusa brutal de Elizabeth. Outra mudança de cenário significativa e que, a meu ver, se transformou na melhor cena do longa, foi o segundo pedido. Enquanto no livro e nas demais versões os personagens estão caminhando juntos à luz do dia, no filme o reencontro e pedido acontece numa charneca logo ao amanhecer. Deparamo-nos com uma cena intensa, poética, romântica e profunda, e o amanhecer representa o começo de algo novo, intenso e significativo na vida dos personagens.

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O tom escolhido pelo diretor é arrebatador. O filme nos transporta com maestria para a época regencial da Inglaterra e é muito fácil nos sentirmos parte do cenário. A direção de arte é um primor, chegando a saltar os olhos. O figurino é majestoso e vibrante, tendo sido indicado ao Oscar e ao British Academy Film Awards. Sobre o figurino, é válido ressaltar que ele destoa um pouco das outras adaptações, embora seja uma representação digna e realista da época. Enquanto nas outras mídias o figurino era sempre limpo e bem alinhado, aqui a produção optou por um retrato mais próximo e cotidiano. Darcy, Bingley, Caroline e companhia vestem trajes decorosos, elegantes e charmosos; já a família Bennet e os demais personagens rurais usam roupas mais simples, menos sisudas e desenhadas, que denotam a simplicidade do povo do campo. Essa simplicidade pode ser vista pelos penteados também, ora desalinhados e bagunçados nas cenas cotidianas, ora bem feitos e sofisticados, nas cenas dos bailes mais importantes. A personalidade de Lizzie é bem representada pelas roupas que ela usa, de aparência mais rebelde, “desleixada”, mas ainda assim com graça e leveza. O cabelo também é um ponto forte e obstinado de seu caráter, estando solto ou preso desajeitadamente em boa parte das cenas.

A trilha sonora é um ponto extremamente forte. É uma trilha intensa, intrínseca, profunda e emocionante, que dita o ritmo do filme e casa perfeitamente com as cenas, a ambientação e o crescimento dos protagonistas. Um dos momentos ápices é uma cena em que Lizzie começa de olhos fechados na carruagem e depois aparece em pé de frente a um penhasco. A música é vibrante e tocante, e nessa cena vemos claramente quem é Elizabeth Bennet.

Keira é uma atriz de primeira e sem sombra de dúvidas nasceu para o papel. É a minha representação de Elizabeth favorita. Sua Lizzie tem tudo o que a personagem precisa ter: é obstinada, destemida, forte, teimosa, doce, gentil, ávida, irônica e debochada. Na verdade estamos diante da Elizabeth Bennet mais debochada de todas as versões. Apenas com um olhar, ou um simples sorriso, Keira desmembra os sentimentos mais profundos de Lizzie e cativa a plateia sem nenhum esforço. Não é para menos, afinal, a atriz recebeu sua primeira indicação ao Oscar na categoria de melhor atriz por causa de sua atuação nesse filme. A parceria de Keira com Joe Wright funcionou tão bem, que ela protagonizou mais dois filmes do diretor nos anos seguintes. Keira foi extremamente elogiada pela crítica por sua “notável desempenho, que elevou todo o filme”.

Matthew também é um ótimo ator e fez uma representação deslumbrante e charmosa de Mr.Darcy. Ainda que não tenha sido a mesma febre de Colin Firth, seu Darcy é tão misterioso, arrogante, emblemático e profundo quanto. Matthew nos revela um lado nunca visto de Darcy, o deixando extremamente real com suas inseguranças e sua sensibilidade. Desde sua primeira aparição é possível sentir a aura presunçosa, orgulhosa e esnobe do personagem, bem como seu tédio diante da sociedade. A primeira troca de olhares entre os protagonistas já deixa clara a irresistível atração que Elizabeth exerce sobre ele, ao mesmo tempo em que demonstra sua resistência e seu orgulho diante de tal desejo e posteriormente, sentimento. A química entre Matthew e Keira é perceptível desde o primeiro instante e se torna ainda mais intensa à medida que a interação entre os dois se torna mais crescente. É possível sentir as faíscas, a oposição, o orgulho, o preconceito, o desejo, a resistência, a paixão, a ardência e o amor entre ambos.

O elenco como um todo é uma agradável surpresa. Rosamund Pike nos agracia com uma Jane sorridente, delicada, menina, mulher, confidente, amiga e irmã. As cenas de Jane e Lizzie juntas são lindas e ricas, e a química entre as irmãs é sentida com todo o carinho possível. A Jane de Rosamund é menos participativa que a Jane de 1995, contudo é peça fundamental tanto para o enredo, quanto para a beleza e a sensibilidade dessa versão. As trocas de olhares com o Mr. Bingley são fofas, leves, descontraídas e românticas, e é impossível não torcer pelo casal já no primeiro momento em que são apresentados. Brenda Blethyn também chama atenção como a Sra. Bennet, mais uma vez representada da melhor forma possível. O tom da personagem é acertado, vibrante e cheio de humor. Já Judi Dench é a melhor representação de Lady Catherine de Bourgh, com toda sua pompa, arrogância e desdém. A atriz, apenas com o olhar, transforma sua personagem numa grande víbora, num ser humano detestável, presunçoso e intenso. A cena em que Judi e Keira recriam o embate de suas personagens é admirável. O tom das atrizes casa perfeitamente bem e é um show de interpretação de ambos os lados.

Por fim, posso dizer que esse filme é praticamente uma obra prima, um clássico moderno. O diretor criou cenas maravilhosas e extremamente poéticas. Muitas passagens são tão profundas, que a sensação é a de estar assistindo/ouvindo uma poesia com todo seu brilho, louvor e efeito visual. A sensação que fica após assisti-lo é a de paz, de amor, de esperança. Joe Wright renova nossas esperanças no amor ao retratá-lo com toda sua graça, beleza e intensidade. Lizzie e Mr. Darcy se tornam ainda mais encantadores graças aos seus atores, que não mediram esforços para imortalizar ainda mais esses personagens tão amados.

Embora pouco menos fiel que a minissérie, é minha versão favorita pela forma cativante que a história nos é apresentada. É aquele caso onde tudo se complementa: trama bem elaborada, roteiro bem adaptado, atores excelentes, trilha sonora impactante, locações e cenários de encher os olhos, figurino e caracterização maravilhosos, e uma química arrebatadora e verdadeira entre os protagonistas. É simplesmente de tirar o ar e deixar você pensando/flutuando por horas e horas.

Ps.: a cena de abertura é extremamente bem filmada e, em cinco minutos, já nos dá o tom do filme e resume as personalidades de cada integrante da família Bennet. A entrada de Lizzie é perfeita e representa a personagem sob todas as medidas. O mesmo pode se dizer da cena final, que deixa um sentimento doce e gostoso no ar.

Adaptações de Orgulho e Preconceito Parte 1

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Thiago Lacerda e Nathalia Dill como Darcy e Elizabeta. 

No mês de março, a Rede Globo irá levar ao ar a sua nova novela das 18h. O motivo de eu estar divulgando a novela? Será uma adaptação (a primeira adaptação brasileira) do livro Orgulho e Preconceito, da minha amada e querida Jane Austen. Como estou me sentindo? ANSIOSO! Um pouco de medo também, né? Afinal, sendo o meu livro favorito de todos os tempos, no mínimo eu espero que respeitem o máximo possível a obra e a essência dela. Certamente que, como sendo uma adaptação para a televisão, com números de capítulos bem maiores do que os das séries e minisséries, muita coisa pode ficar diferente. Uma novela de televisão, diferente de um romance, comporta inúmeros núcleos, chegando muitas vezes a passar de 70 ou 80 personagens que irão transitar por, pelo menos, 5 ou 6 meses. Pensando nisso, o autor da novela, Marcos Bernstein, resolveu reunir diversos personagens dos romances de Austen que já são conhecidos pelo público. “Orgulho e Paixão” (título da adaptação) não será apenas baseada em Orgulho e Preconceito; personagens e tramas de Razão e Sensibilidade, Emma, A Abadia de Northanger e até mesmo Lady Susan poderão aparecer na tela. O resultado final dessa grande reunião do universo de Jane Austen nós poderemos conferir a partir de março.

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A família Bennet. 

Aproveitando a vibe das adaptações, como um grande fã de Orgulho e Preconceito, resolvi fazer uma análise das principais obras que foram baseadas no livro. Elas são:

Pride & Prejudice (movie) 1940
Pride & Prejudice (serie) 1980
Pride & Prejudice (série) 1995
Pride & Prejudice (movie) 2005

 

Começando por Orgulho e Preconceito, de 1940.

orgulho_e_preconceito_1940_o       Orgulho e Preconceito (1940) é um filme em preto e branco estadunidense produzido pela Metro-Goldwyn-Mayer e roteirizado Aldous Huxley (autor de Admirável Mundo Novo) a partir do livro homônio de Jane Austen e do argumento teatral feito por Helen Jerome. Teve como atores principais a belíssima Greer Garson e o galã Laurence Oliver na pele de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy. Essa versão é, dentre toda a mais destoante e diferente do livro. Já iniciamos a obra com uma sensação totalmente diferente: a época não é a mesma. Enquanto no livro, Austen nos leva a uma Inglaterra regencial, o filme nos leva a uma Inglaterra Vitoriana, o que por si só já é capaz de provocar grandes mudanças de humor e tons na trama. O vestuário mais contido, simples, porém ainda elegante do período regencial, é trocado por um figurino pomposo, extravagante e impactante. Sabe-se hoje em dia que o figurinista pediu para que o diretor mudasse a época da trama para “criar modelos mais opulentos do que aqueles descritos por Austen”. Outra questão, muito comentada, é que boa parte dos figurinos foram reaproveitados do filme “E o Vento Levou”, que havia sido lançado no ano anterior. A verdade é que, seja por orçamento apertado – o que explica a reutilização – ou por tentativa de criar algo mais “opulento”, a mudança de época destoa as personagens de Austen, a começar pela própria família Bennet. Uma família com dificuldades financeiras e certas restrições jamais se vestiria com os trajes utilizados nos dias casuais. E a abertura do filme já nos apresenta Lizzie e Jane escolhendo fitas e acessórios novos junto com a Sra. Bennet em uma loja. Jane nos é apresentada como uma personagem boba, excessivamente romântica (mais próxima de Marianne de Razão e Sensibilidade do que da real Jane) e afetada. Já Lizzie nos surpreende por um tom requintado, elegante e provinciano.

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Ignorando esses primeiros problemas, o filme segue mais ou menos fiel ao espírito do livro. Algumas falas são idênticas e algumas passagens são bem adaptadas. Diferenças aqui ou ali crescem aos olhos, mas não tão alarmantes assim. Ainda que Mr. Wickham seja apresentado quase ao mesmo tempo em que Mr. Darcy, o roteiro consegue segurar e reservar o melhor (ou pior haha) do personagem no momento certo. Mas outro choque vem em seguida: o Darcy de Laurence, embora belo, misterioso e encantador, é de longe o menos Darcy possível. O tom esnobe é mantido em poucas cenas: o Darcy de Laurence possui inúmeros momentos de sorrisos, risadas e gracejos. Pouco se mantém do cavalheiro sisudo e de aparência arrogante, a não ser em alguns instantes. No mais, a atuação é extremamente afetada. Como se não bastasse, a Elizabeth de Greer, embora bela e atraente, perde a força da heroína de Austen. Aquela mulher irônica, questionadora e impulsiva cede lugar a uma mulher que chora pelos cantos, que é mais fofa do que sagaz, mais tolerante do que impetuosa.

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Eles não são os únicos que sofrem com a mudança de tom. Lady Catherine de Bourgh, embora apresentada de maneira crível e fiel ao livro, passa por uma mudança repentina e surpreendente ao final. Embora tenha sido um momento de surpresa e deleite para mim  – afinal, o roteirista conseguiu dar um tom totalmente inédito para a asquerosa personagem -, ele é totalmente incoerente com a história, o rumo da trama e a crítica de Austen.

Nem tudo é ruim, tampouco. A direção de arte é excelente e, graças a essa maestria, conseguiu levar o Oscar em 1941. Embora tenha desgostado da extravagância da adaptação, os figurinos realmente são belos; a fotografia, a direção e a cenografia possuem muito mais acertos do que erros. É um ótimo filme, tecnicamente falando, com uma produção dedicada, ainda mais se levarmos em conta que foi lançado em 1940, ou seja, exatos 78 anos.

O filme foi muito bem recebido pela crítica na época. Se o separarmos de seu livro, temos um filme interessante, engraçado e leve de se assistir. Embora Jane Austen seja considerada uma precursora do gênero da comédia romântica por alguns estudiosos, é evidente que seus livros sempre trataram de apontar alguma mazela da sociedade, de criticar a burguesia e questionar seus costumes, leis e tradições. O filme de 1940, contudo, preocupa-se apenas com o lado risível, não passando praticamente de um filme de comédia romântica. É como se os roteiristas tivessem tirado todo o lado pendente ao Realismo da obra, e transformado a história em mais uma simplória e boba história de amor do período romântico, do tipo A Moreninha. No final, é um filme totalmente Hollywoodiano. Nota 3 de 5.

Ps.: A melhor cena dessa produção é uma corrida de carruagens, muito bem dirigida e extremamente cômica. Rachei, no melhor sentido haha.

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Orgulho e Preconceito (minissérie) 1980

orgulho-e-preconceito-1980  Em 1980, a BBC levou ao ar Orgulho e Preconceito, minissérie composta por 5 capítulos de aproximadamente 50 minutos cada. Foi dirigida por Cyrill Coke e teve Elizabeth Garvie como Elizabeth Bennet e David Rintoul como Darcy. Foi indicada ao BAFTA em 1981 por Melhor Figurino e Melhor Iluminação TV.

Tenho poucas coisas para reclamar dessa adaptação. Aqui, os produtores preferiram transformar o livro de Austen numa minissérie, garantindo tempo e espaço para adaptar o livro com cuidado e explorar ao máximo seus personagens e ações. De fato, estamos diante da primeira produção baseada em Orgulho e Preconceito que é extremamente fiel.

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Desde as locações e os cenários, ao figurino (finalmente, representado na época CORRETA – e provando que também pode ser belíssimo), à trilha sonora e à fotografia, essa versão consegue cativar pelo cuidado da produção.

Os acontecimentos da história são transmitidos no tempo certo, sem alterações na ordem dos fatores, como aconteceu no filme de 1940. Praticamente todo o enredo do livro está presente. Como adaptação, essa versão é simplesmente impecável, um ótimo trabalho da roteirista Fay Weldon, que conseguiu captar o ar romântico, cômico, sarcástico, irônico e crítico do livro, TUDO ao mesmo tempo.

Muitos diálogos são extremamente idênticos e a maioria das cenas não deixam a desejar, capturando a essência das cenas no livro. Certamente, talvez pela época da produção, não temos uma direção ousada como a de 1995 e 2005, então algumas cenas acabam sendo “JUST OK” em relação às produções posteriores. Para os dias atuais, essa versão acaba se tornando extremamente comum e, de certa maneira, simplória. Porém, ao analisar o período de sua realização, estamos diante de um verdadeiro feito.

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Em relação ao elenco, só tenho uma reclamação específica: David Rintoul. Talvez a minissérie só não mereça mais atenção por causa da sua representação de Darcy. Diferente de Laurence Oliver, que nos entregou um Darcy afetado, Rintoul nos entrega um Darcy EXTREMAMENTE seco, sisudo e apático. Enquanto um pecou ao colocar comicidade num personagem que não a possuía, o outro pecou ao intensificar e exagerar o lado cru. Por causa da atuação de Rintoul, pouco podemos sentir por Darcy. É quase impossível acreditar que o personagem sinta alguma coisa por Elizabeth ou qualquer pessoa; na verdade é quase impossível acreditar que o personagem sinta o que quer que seja. Infelizmente, Rintoul não conseguiu expressar o amor crescente de Darcy por Elizabeth, transmitindo uma frivolidade e uma indiferença absurda até o final da série.

Já Elizabeth Garvie é uma Lizzie perfeita. A atriz é bonita e delicada, aparenta ter a idade de Lizzie (já que Greer Garson aparentava ter 30 anos ou mais) e possui todo o espírito que a personagem pede. A Lizzie de Garvie é destemida, forte, serena, espirituosa, impetuosa, irônica, sarcástica, atrevida e, ao mesmo tempo, doce, frágil e romântica. A atriz conseguiu driblar toda a profundidade e complexidade da personagem por meio de olhares, sorrisos, gestos e expressões. É uma Elizabeth delicada, mas ainda assim cheia de expressividade.

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Outros personagens se destacam também, seja pela atuação, ou pelo roteiro. Assim como no filme de 1940, Mary Bennet acaba tendo um pouco mais de destaque, e é muito divertido analisá-la sob uma ótica diferente. Aqui, a personagem é mais aproveitada em cenas cômicas, mas que reforçam sua personalidade, caráter e carência.

Lady Catherine de Bourgh é bem representada, embora por uma atriz bem mais nova do que nas outras versões. Ainda assim, ela consegue transmitir todo seu jeito esnobe e desdenhoso, principalmente no confronto final com Lizzie. Nessa versão, a personagem volta a ser como a conhecemos, do início ao fim.

Jane e Bingley também conquistam, pela serenidade e pela forma como a química dos dois sobressaiu a química do casal protagonista. Embora uma Jane mais contida, a Jane de 1980 é tão fascinante quanto a do livro. E, claro, a Senhora Bennet é a senhora Bennet, a única personagem que, aparentemente, sempre será muito bem defendida em qualquer adaptação. Nota 4 de 5.

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A melhor novidade de 2017 se chama The Handmaid’s Tale.

 

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The Handmaid’s Tale (2017) é provavelmente a melhor série do ano passado e uma das melhores séries já produzidas nos últimos anos. Criada por Bruce Miller, a série estadunidense é uma adaptação do romance O Conto da Aia (1985) da escritora premiada Margaret Atwood. Foi transmitida pelo serviço de streaming Hulu (tipo uma Netflix, mas que não tem força ainda no Brasil), com o total de 10 episódios que variam entre 45 minutos a 1 hora. A série já levou diversos prêmios, como Melhor Série Dramática no Emmy Awards e Melhor Série de Drama no Globo de Ouro. A atriz que dá vida à protagonista, Elizabeth Moss, ganhou em ambas premiações o troféu de melhor atriz em série de drama.

The Handmaid’s Tale não é só uma simples série. Ela já captura nossa atenção e desperta nossa curiosidade apenas com imagens. Para entrar nesse mundo, você precisa estar preparado e 100% imerso, porque, provavelmente, não será mais a mesma pessoa depois dessa experiência. Sério!

Irei por partes.

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Primeiramente, a produção original do Hulu é um espetáculo visionário no quesito técnico. Os dez episódios são produzidos com maestria, numa qualidade impecável e incontestável. Os cenários são muito bons e reais, possibilitando certa familiaridade com a história; a trilha-sonora é pautada por momentos de tensão, emoção, apreensão, tristeza e um pouco (sim, por que não?) de esperança. A trilha transforma os sentimentos dos personagens e os nossos ao mesmo tempo, ajudando nos moldes dessa história. Mas o trunfo de The Handmaid’s Tale, no quesito produção, está em sua fotografia. Que coisa maravilhosa! São cenas de tirar o fôlego, seja pela beleza estética, pela poesia transmitida pela forma e pelas cores, ou pelo sentimento crescente e amargurado que ela nos deixa. A direção de arte é um primor: o contraste das cores desse mundo cria uma sensação de desconforto e desilusão. O vermelho contrasta fortemente com o verde e os tons pálidos, criando uma atmosfera de alerta que apenas se intensifica à medida que a série avança. Ótima sacada de estética e iluminação. Aqui também abro um parênteses para o figurino, que por meio de suas cores e formas, demonstra um mundo opressivo e que tenta, a qualquer custo, passar uma ideia de paz e harmonia.

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Quanto ao roteiro, The Handmaid’s Tale tem, provavelmente, o melhor roteiro adaptado em anos. Seja no cinema ou na TV, não tivemos no ano passado algo tão forte, visceral, profundo e provocativo quanto essa série.

Para situarmos a história, devemos lembrar que se trata de uma distopia. Como toda boa distopia, estamos dentro de um mundo pós-apocalíptico hipotético. Contudo, diferente dos últimos sucessos lançados no cinema e na TV, o show de Bruce Miller, assim como seu romance homônimo, é mais próximo e familiar a nós. Começamos a história sabendo que não é o mundo todo que está passando por isso (mas que há grandes chances de passar em algum momento). A história se passa no que então foi o território dos Estados Unidos, agora rebatizado como República de Gileade. Gileade pode ser, segundo a Bíblia, uma pessoa, um local, um território, uma região, um monte ou um grupo da tribo de Manassés. Pelo novo nome do país, já temos uma ideia vaga de como sua organização é feita. Gileade é dominado por um governo totalitário como todas as distopias, mas aqui com uma singela – e crucial – diferença: esse governo totalitário é uma teonomia cristã. Teonomia é, em outras palavras, uma sociedade governada pela lei divina, mais especificamente pelas leis que regiam o Antigo Testamento, moral e judicialmente.

Nesse mundo que não está tão distante de nós em números precisos, as taxas de fertilidade caíram em todo o planeta por conta da poluição e das doenças sexualmente transmissíveis. Em meio a uma guerra civil, esse governo toma conta do poder para “limpar” a sociedade e salvar a vida humana. A sociedade é reorganizada como em castas, com hierarquias e status. O domínio é exclusivo aos homens: as mulheres se tornam apenas objetos de decoração e uso abusivo. Perdem o direito ao voto, à liberdade, ao trabalho, aos estudos e à dignidade, sendo subjugadas da pior forma possível. Nessa sociedade, a mulher se cala, abaixa a cabeça e obedece seu marido, “seu homem”. Entretanto, para aquelas mulheres que são férteis, o destino ainda é pior: são raptadas, levadas a centros de treinamento onde são torturadas e passam por uma espécie de lavagem cerebral para que depois sejam obrigadas a conceber os filhos dos poderosos da sociedade. SIM! Brutal, visceral e desumano. Essas mulheres são chamadas de Handmaids (Aias). As aias não passam de escravas sexuais, sem liberdade, direitos, vida e vontade própria.

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A protagonista, Offred, é uma handmaid. Começamos a história acompanhando sua fuga da então nova República de Gileade com o marido e a filha. Eles, como muitos outros, estão tentando fugir para o Canadá, porém em vão. Ela é separada de sua filha e de seu marido e levada para um centro de treinamento. Lá, ela se depara com tantas outras mulheres passando pelo mesmo sofrimento: assustadas, desamparadas, raptadas, destruídas. Offred é designada então a viver na casa do Comandante Fred Waterford para ser a sua aia. Na verdade, aqui está a maior representação da opressão sofrida por essas mulheres. Offred quer dizer “De Fred”. O verdadeiro nome da personagem não é Offred, e sim June. Ficamos sabendo que essas mulheres perderam tudo, inclusive o próprio nome. À medida que são designadas para as casas de seus “senhores”, seus nomes se adequam à nova realidade, mostrando a verdadeira podridão desse sistema controlador, que rouba-lhes inclusive a identidade.

Dessa forma, seguimos a história pelo ponto de vista de Offred em sua nova “vida”. A experiência é acompanhada por flashbacks do mundo antes de Gileade, assim também como por narrações dos sentimentos e pensamentos da personagem, sempre muito pontuais e intensas. Offred está a todo momento sendo vigiada de perto, estando sujeita a regras rigorosas e punições. Todo mês, no período fértil, é estuprada pelo senhor da casa, numa espécie de “ritual” (forma como os poderosos encontraram para que as esposas não se rebelassem), em que a aia é obrigada a ter relações sexuais com o homem enquanto está com a cabeça sob os joelhos da esposa. A esposa de Fred é Serena Joy, uma mulher gélida, dura e quase impenetrável, que só deseja um filho. Serena é uma personagem complexa e que desperta sentimentos complexos por meio dos flashbacks e do presente. Embora fria e capaz de despertar ódio, Serena ainda é uma mulher e, querendo ou não, uma vítima do patriarcado.

Outros momentos da dura realidade das aias são apresentados. Para começar, elas recebem um tipo particular de vestimenta, que as padronizam. Usam vestidos longos vermelhos, com capas vermelhas e chapéus/gorros brancos, um contraste forte com as roupas das esposas, que são de tons azuis ou verdes pálidos, foscos, sem vida. Assim que dão à luz, ficam apenas o período necessário para amamentar os bebês, e logo são designadas para outra família. São proibidas de qualquer tipo de relacionamento e as punições para suas desobediências variam de choques elétricos, a um olho arrancado ou a própria morte, no pior dos casos. Ironicamente, são celebradas e santificadas pelos poderosos, como as salvadoras da pátria; porém, por trás das fachadas, são apenas pertences; objetos comuns. Em um ponto crucial da trama, a imagem que tentam vender das aias para o mundo fora de Gileade é de pura hipocrisia e repúdio.

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Dessa forma, The Handmaid’s Tale conta uma história que é, ao mesmo tempo, assustadora, fascinante, angustiante e intensa. Não só pelo ponto de vista de Offred, mas também de outras figuras femininas importantes no enredo, sentimos variadas emoções: raiva, desespero, lágrimas, dor, indignação. Essa é uma série que causa revolta, que provoca, que desespera, que indigna, que dá asco. Não é uma série fácil, porém é uma série necessária. Precisa ter estômago para lidar com as cenas em que as mulheres são subjugadas de forma brutal, ou que são torturadas e mortas porque resolveram amar alguém do mesmo sexo. Mas é nesse terror; nesse desespero, que percebemos a urgência dessa história, a necessidade de falar sobre esse assunto. Em meio a um mundo cada vez mais caótico, e com o crescimento do conservadorismo em várias nações, em meio a Trumps e Temers, assistir a essa série se torna um lembrete de que precisamos nos unir e combater o ódio, o preconceito, o machismo, o patriarcado, a misoginia, a homofobia. Se torna um lembrete de que o futuro está aí, e tudo pode mudar de uma hora para a outra.

É uma série política, feminista, interrogativa. O que faríamos se isso acontecesse de verdade? Como o resto do mundo agiria diante de uma situação assim? O mais triste é pensar que, em certos lugares do mundo, a realidade das mulheres não é tão diferente da vivida pelas personagens de Margaret Wood. Aqui dá para fazer um panorama com o livro A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini, que retrata a dura vida das mulheres no Afeganistão e como a ascensão de um regime como o talibã transformou a mulher num mero acessório do homem. Não só com o livro, mas com a vida real mesmo, não só no Afeganistão, mas em outros países do Oriente Médio. É a prova de que governos totalitários, machistas, misóginos e acima de tudo, regidos pela religião, nunca trarão nada de bom para as minorias e quem eles considerem inferiores.

São diversas as críticas que podemos retirar de The Handmaid’s Tale. A série expõe o preconceito de forma crua e desnudada, aponta o machismo, que inclusive está impregnado em muitas mulheres. Toca a ferida da misoginia e da supremacia do homem e chama a atenção para o feminismo, para a igualdade de gêneros, para a sexualidade e a liberdade dela, para o valor da vida humana, sobretudo. O que mais assusta é que, tendo a história sendo escrita em 1985 (mais de 30 anos), a série é EXTREMAMENTE atual. 33 anos separam livro do seriado, e em 33 anos a sociedade não mudou tanto assim. Mulheres ainda recebem menos que homens, ainda são estupradas e abusadas com números assustadores, ainda são vistas como culpadas por essas barbaridades, ainda são repreendidas por suas escolhas, decisões e condições. Ainda são ridicularizadas, inferiorizadas e maltratadas. Vivemos numa sociedade doente e despedaçada, e a República de Gileade é apenas uma representação um pouco mais grotesca do mundo no qual estamos.

Outra questão muito importante é como a religião, a interpretação errônea dela e o fanatismo podem ser prejudiciais. Não, não é errado e muito menos proibido ter uma religião, seja qual for, e muito menos falar sobre ela ou querer transmitir conhecimentos ao próximo; a questão iminente é que, a partir do momento que você transforma a sua crença em uma verdade absoluta e universal e direciona essa “verdade” para o outro de forma que ele a absorva integralmente sem condições ou permissões, você está oprimindo essa pessoa e privando-lhe do direito de ser, estar e acreditar no que bem entender. Se um governo totalitário e ditador já é extremamente assustador, como muitos exemplos que tivemos em nossa história, imaginem um governo que é totalitário, ditador e que tira suas leis e tradições do Antigo Testamento? SIM, É PESADO DEMAIS.

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Leis de punição como apedrejamento, amputação da mão, enforcamento, entre outras, são onipresentes em The Handmaid’s Tale. A expressão “olho por olho e dente por dente” nunca foi tão levada ao pé da letra. Inclusive, dois dos grandes momentos da série envolvem esse tipo de punição. (SPOILER) Em uma cena, todas as aias são reunidas para que punam um homem que estuprara uma mulher; na outra, as aias são novamente reunidas para apedrejarem uma companheira que havia tentado se matar junto a um bebê – seu filho – de colo. Essa última cena é um dos momentos mais intensos, intrínsecos e reveladores da série.

Vemos, portanto, como a humanidade se destrói e se corrompe cada vez mais à medida que segue essas leis. A opressão, o medo e a punição andam de mãos dadas, a todo instante. Não há para onde correr, muito menos onde se esconder. Os ensinamentos contidos na Bíblia são deturpados e interpretados da pior maneira, levando os políticos, as autoridades e os senhores poderosos a cometerem todo tipo de atrocidade em nome de Deus. É em nome de Deus, a favor da vida e da família (isso soa familiar para vocês?) que as aias existem. É a favor de uma humanidade mais justa, limpa e harmônica que as mulheres deixem de significar mais do que esposas e mães. É em nome de Deus que seres humanos são torturados, enforcados em praça pública e condenados por apenas amarem uns aos outros…

A hipocrisia, certamente, é o alicerce da sociedade de Gileade. Nesse mundo aparentemente perfeito, moral e ético, a prostituição sobrevive. Na clandestinidade, os poderosos encontram prazer, diversão, sexo, orgias e bebidas à vontade. Os bordéis existem para que as comitivas de negócios sejam entretidas, para que os estrangeiros sintam-se à vontade e em casa, claro, às vistas grossas da República. As mulheres que lá trabalham são denominadas de Jezebel, que na Bíblia foi uma princesa fenícia conhecida por sua sedução e outras “abominações”. Essas mulheres, outrora, foram professoras universitárias, advogadas, presidentes e/ou donas de empresas; mulheres de alta posição e valor intelectual mostrando claramente a ironia de colocá-las agora como prostitutas. Aquelas que não foram mandadas para as Colônias (lugar que é apenas citado, mas bastante temido pelas personagens femininas por ser um lugar de exílio e punição máxima), são obrigadas a servir os homens em seus prazeres carnais. Mais um ponto angustiante, porém contundente, abordado pela série.

Ainda que pareça impossível, ainda há esperança. Primeiramente, esse governo não afetou – não na primeira temporada, ao menos – o mundo inteiro. No Canadá existem grupos de apoio e ONGs que ajudam os sobreviventes e as vítimas do extinto Estados Unidos. Em segundo, mesmo dentro de Gileade, existe a resistência. Ouvimos falar pouco sobre ela durante a série, mas sabemos que ela existe e está presente pelo nome Mayday e será mais explorada na próxima temporada, que promete ser ainda mais arrebatadora.

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O sucesso da série é tanto, que a segunda temporada estreará agora em abril. Elizabeth Moss voltará para o papel de June/Offred. A atriz foi a melhor escolha e provavelmente um dos melhores acontecimentos do seriado. Sua forma de atuar é sagaz, profunda e inquietante: com o olhar, ela transmite todos os sentimentos intrínsecos e oprimidos da personagem, construindo cada tom, cada camada de June/Offred com maestria. Não é para menos que ganhou dois prêmios importantíssimos. Num conjunto geral, todo o elenco é afiadíssimo, tanto os homens, quanto as mulheres, mas certamente, são elas as detentoras do poder e do brilho final.

The Handmaid’s Tale é, portanto, mais do que uma série. É um comunicado, um aviso e um atestado. Um pedido de socorro e ao mesmo tempo um recado de alerta. Uma forma de encarar o mundo com outros olhos e de repensar sobre os direitos humanos, os direitos das minorias e, acima de tudo, o direito das mulheres. É uma série que CONFRONTA, ENFRENTA e CHOCA. É uma série que discute, grita e provoca. The Handmaid’s Tale pode ser chamada, facilmente, de uma obra prima. A mais nova obra prima da televisão norteamericana, a mais nova obra prima dos tempos modernos.

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E sim, eu não consigo mais ser a mesma pessoa depois de assistir a esse show!

 

 

 

 

04/04/2017

04/04/2017

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Seus lábios tocando os meus
foram o remédio que eu precisava,
anestesiaram meus sentidos,
enquanto me lançavam de volta
ao mundo sensorial;
Eu percebi que não precisava
estar acordado,
mas no momento em que você
tão gentilmente tocou em mim,
eu me despertei num salto
para o emaranhado de possibilidades
que se abriam diante
do simples ato de estar ali.
Sua língua era tão doce, tão cálida,
que me perdi em fragmentos;
um milhão de devaneios
em situações diversas.
Quando você segurou minha mão,
ali, na frente de todos,
eu senti uma porta se abrindo
para o meio do universo e diante
dela, vi tantas constelações e
dimensões, que achei que fosse
me tornar parte da energia quântica
de ser eu mesmo.
Quando te olhei uma última vez
naquele dia, eu senti, mesmo sabendo
que a ilusão era uma hipótese refutável,
que ainda existiam chances
para meu existir.

F.S. Consolini

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365 dias depois

365 dias depois… E estou aqui;
Estou diante da tela à meia luz
olhando para a página em branco,
com os dedos apoiados no teclado,
enquanto ouço a música
que fala sobre voltar à noite
que nos conhecemos;
O ritmo é intenso, lento;
inebriante…
Inebriante como seus olhos,
como a lembrança já longínqua
daquele beijo apaixonado
que se perdeu nas letras do passado,
que ficou marcado na parede
do firmamento,
que escapou por um triz
entre meus lábios
rachados pela mágoa.
Enquanto ouço a música,
penso no contorno do seu abraço,
no conforto que nunca mais virá;
penso em tanta coisa,
que já não penso em nada,
que já não sou nada,
que sou tanto,
que deixei de ser eu mesmo.
Enquanto ouço e penso,
tento me concentrar, em vão,
no resto de sanidade que restou
e tudo que eu sei,
é que eu não sei de mais nada,
nem de mim mesmo.
Por quê?

F.S. Consolini

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Momentos

Será?

F.S. Consolini

Será que eles não desconhecem
as razões intrínsecas
os motivos mais nefastos
que fazem a mente
dar voltas e súplicas
ao redor de um abismo
de intensas lamúrias?

Será que eles não desconhecem
os pensamentos amargos,
o sabor insalubre
da substância do pecado,
os ardores mais repentinos
das lembranças enclausuradas?

Será que eles não desobservam
ou não se fecham
quando à volta deles
o mundo desmorona em
pedaços de seixo e fogo?

Será que eles não despercebem
no meio do apogeu cotidiano
banal e ordinário,
que a vida é como o pavio
de uma vela que já foi
soprada?

Será?

Só de passagem

F.S. Consolini

Você fechou a porta
Saiu pela fresta que restou
E eu mal te conhecia
Tudo bem, ou não, mas
Você fechou a porta
cruzou pela minha vida
e não me deu oportunidade,
não me deu tempo… Entretanto,
Você fechou a porta
Era o que eu merecia?
Talvez eu só quisesse ser notado,
talvez eu pudesse ter sido notado,
Contudo,
Você fechou a porta
e não tinha obrigação nenhuma
de deixá-la aberta, eu sei…
Mas quando você fechou a porta
Eu senti que minha vida
era o mesmo que um portal vazio
sem frestas para me esgueirar.

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Análise de 13 reasons Why (Os treze porquês)

Por Felipe Siciliano Consolini

No dia 31 de março de 2017, a Netflix lançou a adaptação do livro Os Treze Porquês, do autor Jay Asher, em formato de série, composta por 13 episódios. 13 reasons Why, a série, consegue aprofundar as questões abordadas no livro de maneira ímpar e ainda nos leva para novas reflexões e percepções acerca de nós mesmos e do outro.
Deixo claro, antes de qualquer abordagem, que essa análise crítica possui spoilers, tanto do livro, quanto da série; então para quem ainda não leu ou assistiu, recomendo que voltem após a conclusão.

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O Livro

Antes de falar sobre a série, acho importante estabelecer um panorama sobre o livro, apontando as diferenças e as semelhanças entre as duas mídias.

Os treze porquês, de Jay Asher, é um livro publicado em 2007 e por uma década vem constando na lista de best-sellers do The New York Times. Segundo o autor, a ideia para a história surgiu após a tentativa de suicídio de uma parente que tinha a mesma idade de Hannah. Jay Asher usou pessoas próximas, como a mulher e suas parceiras de escrita, para se inspirar nas treze razões da personagem principal, além de experiências pessoais durante o Ensino Médio. Muitas cenas do livro, em questão, se assemelham com a vida real do escritor. Durante uma entrevista publicada no final da 1ª impressão de 2015 para a Editora Ática, Jay Asher comenta também que queria sim transmitir uma mensagem através do livro: “As pessoas têm impacto na vida dos outros; isso é inegável. Minha citação favorita vem de uma garota, que contou que Os 13 porquês fez com que ela quisesse “ser uma pessoa maravilhosa”.

No livro, Clay Jensen recebe uma caixa com 7 fitas, separadas por Lado A e lado B, que contam as treze razões pelas quais Hannah Baker se suicidou. Mesmo sem entender nada, Clay escuta cada uma das fitas e vai reagindo conforme os nomes e os motivos são apresentados, até seu nome aparecer, no lado A da fita 5.

O livro não é grande, com cerca de 250 páginas, com uma narrativa simples, fácil e fluída, que acelera o processo de leitura. Cada capítulo narra um lado de cada fita, e são divididos entre as lembranças de Hannah, escritas em itálico, e os pensamentos/ações e reações de Clay. O interessante é que diferente da série, a narrativa do livro é mais ágil pelo fato de acontecer em uma noite só. O Clay do livro reage de maneira bem diferente se comparado ao Clay da série: em uma noite, o personagem ouve as fitas e percorre os trajetos indicados por Hannah, vivenciando a experiência ao máximo. Não há o senso de justiceiro, ou o desejo de vingança do personagem; afinal, não há tempo para isso. Por tudo ser “resolvido” em uma tacada só, o número de personagens do livro é bem pequeno em comparação à série. As subtramas do seriado praticamente não existem no livro: o julgamento, o processo dos pais contra a escola, os dramas e reações dos demais personagens envolvidos nas fitas. Na verdade, conhecemos os porquês de Hannah apenas sob o ponto de vista dela. No livro, só há uma verdade. Não sabemos dos problemas familiares de Justin, da sexualidade de Courtney, ou das tentativas de reparação de Sheri. Não temos ideia dos dilemas enfrentados por Alex Standall (que culminam em um acontecimento X no episódio final), e da luta interna de Jessica em acreditar ou não no fato de ter sido estuprada. No livro, tudo o que sabemos é o que Hannah contou, e conhecemos um pouco melhor dos personagens de acordo com as reações de Clay ao nome deles e a lembranças com eles.

Em meio a isso, o clima de suspense do livro é um pouco mais forte, pois somos devorados junto ao garoto para dentro das fitas e dos lugares apontados por Hannah. Em determinados momentos, as reações de Clay são as nossas. Em determinadas circunstâncias, a sensação de que não conseguiremos avançar é forte e perturbadora. Nos envolvemos com Hannah, mesmo tendo o conhecimento de que ela já está morta. Nos solidarizamos com Clay, por sua honestidade e pela dor de não ter conseguido ajudar a menina que ele estava apaixonado. Reagimos aos demais personagens num misto de raiva, ódio e reflexão; reflexão porque também podemos ter agido igual a eles, em algum momento da vida.

O livro e a série ainda possuem mais algumas pequenas modificações, como a ordem de algumas fitas. No livro, Clay é o 9º, na série, ele é o 11º. Num exemplo mais simples, enquanto no livro a ordem é Clay, Estupro e Placa, na série a ordem é Estupro, Placa e Clay.

”     E espero que não fiquem decepcionados. Espero que não estejam escutando estas fitas salivando por alguma fofoca. Espero que estas fitas signifiquem mais do que isso para vocês.
      Clay, querido, seu nome não pertence a esta lista.
      Encosto a cabeça na janela e fecho os olhos, me concentrando na sensação que o contato com o vidro frio traz. Talvez, se escutar as palavras e continuar concentrado no frio, eu consiga me segurar.
      Você não pertence a esta lista da mesma maneira que os outros. Mas você precisa estar aqui, para eu contar minha história. Para contá-la da maneira mais completa.”

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Outra diferença crucial está no ato do suicídio. Enquanto na série Hannah corta os pulsos e sangra até a morte na banheira (numa cena atônita, forte e cruel), no livro Hannah se mata após ingerir uma quantidade fatal de remédios.

“Acho que me expressei com muita clareza, mas ninguém deu um passo para me impedir.
Quem, Hannah? Seus pais? Eu? Você não foi muito clara comigo.
Muitos de vocês se importaram comigo, mas não o bastante. E isso… Isso é o que eu precisava descobrir.
Mas eu não sabia o que você estava passando, Hannah.
E eu descobri.
Os passos continuam. Mais rápidos.
E eu sinto muito.
Num estalo, o gravador é desligado.
Com o rosto pressionado contra as barras, começo a chorar […] Mas não me importo se me ouvirem, porque não consigo acreditar que acabo de escutar as últimas palavras de Hannah Baker, as últimas de toda minha vida […]”

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A sensação predominante após a leitura é de melancolia. Melancolia, amargura, obscuridade. Prevalece um sabor agridoce, para não dizer 100% amargo, pois apesar de tudo, o final nos dá esperança; esperança de que podemos ser pessoas melhores para os outros e que nunca estaremos sozinhos de fato.

A SÉRIE

A adaptação de Os treze porquês, 13 reasons Why, lançada pela Netflix, é assinada por Selena Gomez e sua mãe, Mandy Teefey, como produtores executivas. A ideia, inicialmente, era de uma adaptação para filme, estrelando a própria Selena, mas de alguma forma, a cantora, atriz e produtora sentiu que deveria trabalhar nos bastidores. O resultado não poderia ser melhor: a produção da série é boa, consistente e segura; as abordagens foram intensas e profundas, a preocupação da equipe de produção aos mínimos detalhes é notável, desde os cenários, às locações, à trilha-sonora e  à edição/recorte de cenas, além da escalação da ótima Katherine Langford como Hannah.

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Por falar no elenco, todos se esforçaram para criar personagens consistentes e reais. Katherine Langford, australiana e novata, deu conta do recado e construiu uma Hannah ao mesmo tempo delicada, intensa e frágil. À medida que os episódios avançam e os dilemas/dramas e conflitos de Hannah crescem, a atriz consegue mudar o tom, da neutralidade à dor, da alegria ao desespero, do medo à angústia, de maneira comovente e real. A cena da hidro, em que Hannah é estuprada por Bryce, demonstra a versatilidade da atriz. A cena é chocante, explícita e forte, ao contrário do livro, que se limita a descrever a situação. Outra cena que exala o cuidado da atriz com a personagem é a do suicídio na banheira. Talvez a mudança de medicamentos para o corte nos pulsos tenha se dado exatamente pela capacidade da atriz de segurar as pontas e comover a todos com seu excelente trabalho.

Outros nomes merecem destaque e fazem por merecer. O ator que dá vida a Clay Jensen, Dylan Minnette, consegue cativar, transmitir toda a raiva e ódio, desespero e angústia que o personagem pede. Nos momentos de silêncio de Clay, sentimos a mesma melancolia. Nos momentos de revolta, sentimos a mesma raiva estancada e crescente. Destaque também para Kate Walsh, que interpreta a mãe de Hannah e Amy Heargraves, que interpreta a mãe de Clay. Alisha Boe (Jéssica) e Miles Heizer (Alex) também conseguem captar os dramas de seus respectivos personagens.

Diferentemente do livro, a série expande as reações ao suicídio de Hannah, não limitando a narrativa apenas a Clay, embora ele continue sendo o personagem central. Subtramas são criadas para a necessidade de aprofundar os demais personagens envolvidos. Ainda que cada episódio siga a mesma divisão do livro, somos jogados no presente e no passado à medida que Clay descobre os conteúdos das fitas e se relaciona com as outras pessoas. Talvez, por essa razão, a série seja um tanto quanto monótona nos primeiros episódios, mas à medida que avança, já somos íntimos dos personagens e somos colocados num emaranhado de decisões, sentimentos e frustrações que culminam nos 5 últimos episódios, os mais intensos, pesados e difíceis da produção. São, também, os mais ágeis de todos, misturando suspense, adrenalina e drama.

Com essa preocupação de criar subtramas que envolvam os demais personagens das fitas, temos também subtramas que englobam os efeitos do suicídio e do bullying em si. Os pais de Hannah, que são ausentes no livro, na série estão sofrendo os efeitos do suicídio da filha. Preocupados em entender o que de fato aconteceu, iniciam um processo contra a escola por negligência e falta de atenção às necessidades psicológicas da filha. A escola, em resposta, quer provar que não tem nada a ver com o acontecimento, mas fica cada vez mais difícil quando os alunos, o orientador e demais professores se veem em uma saia justa. É interessante o cuidado com essa trama, pois ela levanta a discussão de como as escolas podem se preparar para a abordagem de temas como o bullying, o cyberbullying e o suicídio; como podem prevenir, e até mesmo impedir tais situações.

No livro, Clay simplesmente passa as fitas adiante. Não sabemos qual é a interação dele com os demais. Na série, entretanto, Clay corre atrás de entender as motivações de cada um dos envolvidos, e sempre que a resposta é negativa para ele, o garoto tenta honrar a memória de Hannah por meio de ações, que alternam entre vingança e justiça. É dessa forma que percebemos quem, de fato, se arrepende das atitudes que tomou, e quem não está dando a mínima, mais uma vez, aos sentimentos de Hannah. Alguns parecem desesperados em contar a verdade, para se livrarem da culpa; outros querem, a qualquer custo, esconder quaisquer vestígios que possam condená-los a algo maior. É dessa forma que a série expande o conteúdo do livro, ao levar em debate as consequências do suicídio não só para a família de Hannah, mas para todos. Numa das melhores alterações da adaptação para com o livro, Clay vai até a casa de Bryce para confrontá-lo. Sem saber que o garoto está com um gravador, Bryce admite ter estuprado Hannah. Dessa forma, Clay grava o 14ª porquê, e a passa adiante junto com as demais, para o orientador e professor Porter, que está no lado A da mesma fita.

O final, embora mais amplo que o do livro, também termina em aberto. Sabemos que Alex Standall se deu um tiro, mas não sabemos se ele de fato se suicidou. Sabemos que Jéssica finalmente descobriu o estupro que sofreu de Bryce e parece ter encontrado coragem suficiente para contar ao pai e pedir ajuda. Sabemos que Justin foi embora e Tyler, aparentemente perturbado, reuniu um arsenal de armas dentro de casa. Sheri resolveu contar tudo à polícia, e não sabemos as consequências disso. Sabemos que os pais de Hannah finalmente começaram a ouvir os áudios da filha, assim como o sr. Porter, e que a verdade sobre Bryce chegará em algum momento, mas não sabemos quais serão as consequências disso. Ele será punido? A escola perderá o processo? São pontas que ficaram solta, mais no intuito de nos provocar reflexões intrínsecas sobre os efeitos não só do ato de Hannah, mas dos atos de todos ao redor dela, do que de encontrarmos respostas. De qualquer forma, fica uma ideia para uma possível segunda temporada, que Selena Gomez e outros produtores, inclusive o próprio autor, não descartaram ainda. Embora sem um livro para se guiar, uma segunda temporada que mostrasse a consequência dos atos de cada um deles e suas punições talvez fosse interessante para mostrar que o bullying é um crime e precisa ser punido/brecado.

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Temas necessários

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A série discute sobre vários temas necessários. O bullying e suas derivações como o cyberbullying, o suicídio, o machismo, a depressão e o estupro. São temas importantes e, na maioria das vezes, considerados tabus. A série vem recebendo inúmeras críticas, positivas e negativas, sobre a abordagem desses temas. Há quem defenda que a série exagerou e romantizou o suicídio, não mostrando que existem outras saídas e criando culpados para justificar o ato. Há quem defenda que a série tem seu mérito exatamente em mostrar as consequências de um suicídio para as pessoas que ficam e como pequenas atitudes, que muitas vezes não damos atenção, podem afetar as outras pessoas. Outra crítica que a série vem recebendo, é por ter mostrado o suicídio de Hannah de uma forma bem gráfica (de fato, a cena é lenta, dolorosa e sufocante), contrariando as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS), que recomenda que certas cenas não sejam mostradas, por causarem o Efeito Weither, que é quando um suicídio pode inspirar pessoas fragilizadas a fazerem a mesma coisa.

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Acredito na necessidade da série, mas não a defendo como sendo uma série para todos. Embora ache importante todos os temas e assuntos discutidos ao decorrer dos episódios, também defendo que há ressalvas. Crianças/adolescentes muito jovens e/ou emocionalmente fragilizados não deveriam assistir a essa série, a não ser se estiverem acompanhados de um responsável, embora a situação varie de indivíduo para indivíduo. Defendo que pais, professores, psicólogos e psiquiatras, diretores, orientadores e demais responsáveis devam assistir à série e por meio dela, encontrarem a melhor forma de debater com os jovens sobre os assuntos ali encontrados. É importante SIM falar sobre as consequências do bullying, sobre a cultura do estupro e de como ela precisa parar, sobre como o machismo ainda está – infelizmente-  presente e dá “””direitos”””” ao homem de estuprar mulheres ao seu bel prazer, e de como o suicídio nunca será a saída ou a solução para os problemas. Mas é importante também que cada um reconheça seus limites antes de ler ou assistir o conteúdo, pois ele pode ser chocante, desesperador e angustiante. Eu mesmo, em muitas cenas, tive que respirar fundo: não digo só sobre segurar o choro, ou me entregar a ele; falo também sobre as lembranças que as situações mostradas despertaram, sobre a angústia que determinadas cenas criaram. Em alguns momentos, eu precisei parar, controlar minha respiração, e deixar o restante para depois. Não foi uma série fácil de assistir, ao menos não nos últimos episódios, que são bem mais fortes que os primeiros. É uma série difícil, que precisa ser sentida e refletida. Eu não recomendaria uma maratona para aqueles que estão passando por algum problema psicológico no momento.

Mas também acredito que como obra de ficção, a série cumpre seu papel: orientar, conscientizar e mostrar para o mundo as dores e as dificuldades de uma pessoa que precisa de ajuda, mas não sabe como pedir, a quem recorrer, ou o que fazer. Como obra de ficção, o livro e a série trazem a reflexão necessária para todos os indivíduos: Você já foi Hannah Baker? Você já foi um dos porquês de Hannah Baker?

Acredito na unanimidade da resposta: TODOS nós já fomos um dos porquês. Todos nós já agimos de uma maneira errada com alguém. A história nos atenta a isso, às pequenas coisas, aos pequenos atos que muitas vezes não damos importância, que podem ferir, magoar ou incomodar alguém. Todos nós precisamos refletir sobre esses atos e, assim como a menina que disse ao autor que o livro a inspirou em se tornar uma pessoa melhor, nós também podemos melhorar, podemos crescer com tudo isso. A própria Hannah Baker não está isenta: não existem pessoas tão boas e tão ruins assim. Ela também pode ter sido o motivo de alguém. Antes de tudo, a série me trouxe um ensinamento forte e profundo: empatia. Precisamos ter empatia com os outros, precisamos aprender a nos colocarmos no lugar do outro, precisamos entender que situações que para nós parecem pequenas, podem significar um turbilhão na vida da outra pessoa. A série me ensinou sobre como podemos melhorar, como podemos prestar atenção nas outras pessoas. As pessoas, às vezes, só estão precisando de um incentivo para se ajudarem, e nós podemos ser esse incentivo.

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Eu já fui Hannah Baker. Ler o livro e assistir a série me fez reviver situações em que eu fui a personagem. A escola nem sempre é o lugar de recreação, motivação e interação que a sociedade impõe. A escola também pode ser infernal, cruel e traumática. E é por isso que os professores, os pais e os responsáveis precisam encontrar uma forma de, com a série, alcançarem os jovens e os atentarem para a necessidade de tratarem o outro com respeito e empatia. E ao mesmo tempo, mostrar aos jovens fragilizados que eles NÃO ESTÃO SOZINHOS, que há vida pela frente, que existem inúmeros meios de pedir e receber ajuda, que as coisas podem melhorar e ficar bem. O suicídio nunca foi e nem nunca será solução para nada e a série esclarece isso em todos os episódios. Inclusive, ao final do último episódio, temos um documentário com o elenco, os diretores e os produtores, de cerca de meia hora, que mostra ao público que a decisão de Hannah não deve ser a decisão das outras pessoas. Hannah chegou ao seu limite, não pela culpa alheia, mas por não conseguir pedir ajuda, por não conseguir ser ouvida, por não conseguir se expressar, por sentir que estava sozinha em sua dor.

Concluindo, 13 reasons Why trabalha com os temas de forma intensa e muitas vezes, chocante, portanto, se você não está totalmente bem, não avance com os episódios se não estiver 100% certo de que não sofrerá. A série é ótima e no final, a sensação que fica é de vazio, pois Hannah Baker deveria estar viva. Embora dramática e pesada, é possível apreender lições valiosas e sair do show com um sentimento de esperança: Não estamos sozinhos, não precisamos estar sozinhos, e sempre poderemos pedir ajuda, sempre poderemos melhorar.

Deixo aqui a música Only You, regradava por Selena Gomez e que toca em uma cena extremamente bonita no último episódio.